o que dizer sobre a tragédia ocorrida em Santo André? a culpa pelo desfecho terrível pode ser atribuída a alguém? a quem?
são tantas as perguntas que ouvimos e até mesmo que estão dentro de cada um de nós que nos fazem querer encontrar um culpado, seja ele quem for.
no entanto, aqui as coisas são mais complicadas. havia um seqüestrador (um rapaz que nunca havia cometido um crime, trabalhador, de família pobre, criado sem pai, whatever), duas vítimas de 15 anos (duas meninas estudiosas, também de família humilde), um grupo policial especializado (o GATE), a policia civil, um promotor, um advogado, milhares de curiosos e uma imprensa pra lá de sensacionalista.
o Brasil parou por 10 dias, aproximadamente, onde tudo girava em torno desses personagens, pois foi a isso que a mídia os transformou, em meros personagens de um big brother do terror. a mídia tem culpa. tem culpa pela banalização do sofrimento alheio, pela falta de bom senso, pela capacidade de extrair sangue de coração seco que sangrou dias na angústia e no desespero. isso não é jornalismo, é dramaturgia, é novela, é falta de respeito e afronta aos direitos fundamentais, do direito a privacidade e a intimidade. independente se houve a permissão da família, a isso não caberia tal pedido, a família não tem cabeça pra permitir nada nesse momento, será que os apresentadores Ana Maria Braga, Datena e demais sanguessugas não pensaram nisso? é incompreensível o modo de se fazer jornalismo no Brasil. primeiro, o caso Isabela, agora o caso Eloá, isso só neste ano de 2008. parece que a mídia deseja um final trágico pra ter no que “trabalhar”, pra ver os pontos do ibope subirem a cada lágrima, a cada aparição na janela, a cada tiro disparado.
de outro lado, temos o telespectador que infelizmente adora uma tragédia, adora a exposição do sofrimento de terceiro, parece uma forma de não se sentir o único injustiçado do planeta. claro que é impossível não sofrer diante de uma situação desta, é a solidariedade que ainda insiste em se fazer presente em alguns brasileiros. o que eu quero demonstrar aqui é que se a população não assistisse ao sensacionalismo dos telejornais eles passariam a não fazer mais esse tipo de reportagem, pois não daria ibope. a verdade tem que ser mostrada, é óbvio, mas pra que, por exemplo, acompanhar o enterro? todo mundo sabe que após a morte vem o enterro, a TV não precisava mostrar.
não me excluo do número que viu as reportagens, a TV só mostrava isso. mas sempre me interessei mais pelos debates entre promotores, delegados, coronéis, advogados, e mais um monte de gente querendo achar um culpado e querendo tirar o seu da reta. queria sentir que eu não estava sozinha em meus pensamentos. alguns diziam que era notório que isso viesse a acontecer, …que a polícia não conseguiu visualizar essa possível alternativa, …que o rapaz era um bom moço e que agiu no desespero, …que os pais foram displicentes ao deixarem a menina namorar um jovem tão mais velho, …que a polícia não é bem treinada devido a falta de interesse por parte dos políticos. cada qual querendo livrar seu candidato a culpado do rol de culpado efetivo.
sou advogada, recém formada, com nada de experiência na área criminal, no entanto, desde o inicio consegui visualizar esse fim, simplesmente por ter lido sobre crimes passionais, por conseguir pensar que na pressão, no cansaço e no auge do desespero as coisas se dariam da pior maneira possível. todos estavam cansados, polícia, seqüestrador e vítimas. já que iriam invadir porque não invadiram antes? já que esperaram tanto tempo porque não se preparam mais? não venham me dizer que a polícia não pudesse imaginar que haveria obstrução atrás da porta de entrada do apartamento. meu deus, todo mundo quando busca um esconderijo, uma fuga, uma certa privacidade, seja lá o que for, coloca um móvel, ou qualquer outra coisa que possa bloquear a entrada ao cômodo. eu fazia isso quando criança, quando fazia arte e pretendia escapar das palmadas de meus pais.
sobre a personalidade de Lindemberg (Lindembergue), ele não passava de um passional que demonstrou à todo momento ser capaz de matar. quem invade a casa de outrem com armas e muita munição, atira da janela em direção aos policiais não tem a intenção de matar? desculpem-me, mas não consigo aceitar as indagações de que ele era trabalhador, um bom moço. a partir do momento que ele invadiu a casa de uma família e fez pessoas de refém sobre a mira de uma arma portada ilegalmente ele passou a ser criminoso. e o estado deveria proteger a vida da vítima e não do criminoso.
a falta de preparo da policia foi visivelmente notada no momento em que permitiram o reingresso da refém liberta ao cativeiro, foi o mesmo que jogá-la na jaula do leão. isso não se faz, não era um filme, ou novela por mais que parecesse. eles deixaram o seqüestrador tomar conta da situação, ele mandava e desmandava, sentindo-se realmente o “príncipe do gueto”. isso que era uma pessoa inexperiente no ramo. se fosse um seqüestrador profissional teria matado as reféns, a polícia toda, as equipes de reportagens, e jogado um avião nas torres do CDHU.
FRACASSO. é aí que reside a culpa. o fracasso do estado democrático de direito direito de quem mesmo? da vítima ou do agressor? representado nesse ato pela polícia, que especializada ou não, é a grande culpada. aonde já se viu invadirem daquela forma o apartamento, parecia uma equipe de trapalhões, que estava participando de um teste para conseguir vaga na tão almejada especializada. vergonhoso.
com relação aos pais da garota, não há que se dizer que foram displicentes, todos sabem que hoje em dia não existe a palavra proibido na adolescência, proíbe e o jovem vai lá e faz da mesma forma, ou pior, longe dos olhos dos pais. não, não há como fiscalizar a fundo a vida dos filhos quando se tem uma família pra sustentar, quando se tem uma sociedade cada vez mais capitalista, uma desigualdade que salta aos olhos. definitivamente, o grau de culpa dos pais é – 100.
acredito que deva ter feito um embolado de idéias ao querer distribuí-las coerentemente, talvez não compreendam meu ponto de vista, por isso resumo a vocês: a culpa foi da polícia, consequentemente do estado, de ter acreditado que se tratava apenas de um “pobre rapaz” sobre forte emoção, de subestimar a capacidade do mesmo “pobre rapaz” em se transformar num assassino em um passe de mágica, de não apreciar a inteligência de um rapaz determinado a matar. desculpa GATE e demais policiais envolvidos no caso, mas Eloá poderia estar viva se não fossem tantos erros e falhas seguidos. temo por ser verdade o pensamento que martela aqui dentro (por ser ela de família humilde, o desfecho tenha sido esse, garanto que se fosse o filho de qualquer personalidade que tem dinheiro do país, desde o começo o rapaz seria um criminoso e seria sim alvejado pela polícia, mesmo que depois viesse toda aquela comissão de direitos humanos, OAB (outra vergonha), ONG’S e afins martirizar o estado ele teria agido corretamente, em prol da vítima).
É necessário diminuir a desigualdade, essa desigualdade que mata e hostiliza cada vez mais os inocentes. E agora Lula? Agora sim é hora de reformar, reformar o judiciário (especialmente o processo penal), reformar a polícia, reformar o Brasil todo, porque do jeito que está não dá pra continuar.